• Maturity Concierge Luciene Bottiglieri

Vida precária, saúde mental na velhice… precária


Os problemas relacionados com a saúde mental não devem ser aceites como parte natural da velhice. Mas é importante termos em conta que o envelhecimento da população traz novos desafios, que serão agravados pelo atual contexto de crescente precarização. A saúde mental na velhice é tão importante quanto em qualquer outro momento da vida. No entanto, diversas mudanças de cariz biológico e social, muitas vezes a ocorrer em simultâneo, implicam cuidados acrescidos, específicos, e individualizados. Vale lembrar que em todos os momentos da vida, a saúde mental influencia e é influenciada pela saúde física.

Se por um lado há de facto uma tendência de declínio da capacidade funcional individual na velhice, também é preciso reconhecer que muitas vezes esta pode e deve ser remediada. As políticas públicas devem ter em conta intervenções simples, como por exemplo, garantir que as pessoas tenham acesso a um novo par de óculos, e mais complexas, estruturais, como a adaptação das jornadas de trabalho, a garantia de acesso à formação durante toda a vida, e a promoção de atitudes inclusivas e anti discriminatórias em toda a sociedade.

Um dos preconceitos ainda fortemente enraizados em relação ao envelhecimento foca exatamente a questão da saúde mental. Para além da ideia de que são problemas “normais” da velhice, o questionamento da saúde mental é frequentemente utilizado como ferramenta para descredibilizar, alienar, e reduzir as pessoas mais velhas. Em alguns casos, é mais fácil descredibilizar uma pessoa em função da sua idade, do que rebater as ideias que ela defende.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)1 mais de 20 por cento da população mundial com 60 e mais anos padece de algum tipo de doença mental ou neurológica, dentre as quais as mais comuns são a demência e a depressão, que afligem respetivamente 5 e 7 por cento deste mesmo grupo populacional. É importante lembrar que há um elevado número de casos não identificados, justamente devido ao estigma associado a estas doenças.

Para além dos novos desafios advindos da mudança no perfil demográfico, devemos também atentar pela preservação de importantes e recentes conquistas sociais durante toda a vida, como as alcançadas pelo movimento LGBTI+. Somados aos preconceitos existentes em relação aos mais velhos, e diante da virtual inexistência serviços que explicitamente reconhecem e acolhem pessoas mais velhas “não heterosexuais”, corremos o risco de ver muitos a voltar para o armário na velhice.

Precisamos ainda saber mais sobre as repercussões da saúde mental em diferentes fases da vida. Um tema ainda pouco explorado na literatura científica é o efeito cumulativo que as adversidades enfrentadas ao longo da vida têm na saúde mental durante a velhice.

Para se ter um exemplo, e segundo um estudo2 recente realizado na Inglaterra, pessoas que tiverem experiências adversas sequências ao longo da vida, adversidade durante a infância, ou perdas ligadas a relacionamentos afetivos, têm maior probabilidade de apresentar sintomas de depressão na velhice.

Vidas precárias resultam em uma saúde mental precária, e isto tende a agravar-se na velhice. Não devemos esperar para reforçar as prestações de cuidado ao longo da vida, e muito menos menosprezá-las durante a velhice.

Notas (1) Fonte: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-of-older-adults#:~:text=Mental%20health%20and%20well%2Dbeing,suffer%20from%20a%20mental%20disorder(link is external)

(2) https://www.cambridge.org/core/product/identifier/S0144686X19000461/type/journal_article(link is external)

(*) Gustavo Sugahara – Economista, investigador do SERAF (Universidade de Oslo) e do DINÂMIA’CET-IUL. Colaborador do Portal do Envelhecimento. Artigo publicado em Esquerda, no dia 29 de Novembro, 2020, no Dossier Saúde Mental em Tempos de Pandemia.

Foto destaque de Karolina Grabowska no Pexels

fonte:https://www.portaldoenvelhecimento.com.br/vida-precaria-saude-mental-na-velhice-precaria/

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